Indica, Sativa ou folclore?

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(Créditos da imagem: Arquivo)

Coluna de Maria Ribeiro da Luz

Talvez a maneira mais simples de começar essa coluna seja aconselhando você, leitor, a esquecer tudo o que considera entender sobre as classificações da cannabis. A categorização dicotômica de plantas e produtos entre Indica e Sativa nos soa como regra clara, mas vem sendo questionada há algum tempo. Existem diversas pesquisas e debates em torno desse tópico, o que exige revisitarmos as origens e questionarmos a real efetividade do que podemos chamar hoje, de (des)classificação. Os rótulos Indica e Sativa acompanham invariavelmente a planta e seus diversos produtos, sendo diretamente associados aos efeitos causados pelo seu consumo, mas pasmem, essa associação causa muita polêmica e hoje é sinônimo de desinformação.

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Gráfico para identificar certas cepas de cannabis. (Créditos da imagem: Dangerous Mind)

Um novo estudo publicado na Nature Plants analisou mais de 100 amostras, subdivididas em 23 variedades ou quimiotipos de canabis, quantificadas para conteúdo de terpeno e canabinóide. A pesquisa indicou que as amostras rotuladas como Sativa e Indica são geneticamente indefiníveis, e em contraponto avaliou que a rotulagem poderia se evidenciar na concentração de determinados terpenos, cujas concentrações são controladas pela variação genética. 

O folclore canábico nos fez crer que os produtos Indica-dominantes teriam efeitos sedativos e calmantes, enquanto os produtos Sativa- dominantes, teriam efeitos energizantes, porém, essa nomenclatura foi conferida à planta lá no século XVIII meramente pelo seu aspecto morfológico. O botânico sueco Carl Linnaeus, pai da taxonomia moderna, publicou pela primeira vez o nome científico Cannabis Sativa em 1753. “Cannabis” deriva do grego (kannabis) e o termo “Sativa” significa simplesmente “cultivada”, e foi empregado para descrever a morfologia da planta de cânhamo, que cultivavam amplamente em toda a Europa, na época de Linnaeus. 

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Em 1785, o naturalista europeu Jean-Baptiste Lamarck descreveu e nomeou uma segunda espécie, Cannabis Indica, que significa “Cannabis da Índia”, com base na morfologia das primeiras amostras, recém chegadas na Europa. Linnaeus e Lamarck foram tendenciosos na atribuição dessas nomenclaturas, conferidas exclusivamente pelas características morfológicas das plantas, o que acabou distorcendo a percepção da biodiversidade e da distribuição da Cannabis mundo afora. A consolidação dos rótulos “Sativa”, “Indica” e “Ruderalis” foi posteriormente facilitada pelos botânicos do século XX, que ignoraram os protótipos originais e agregaram seus próprios preconceitos culturais. 

O universo de uma variedade botânica foi definido sob um espectro reducionista da morfologia, ignorando aspectos fitoquímicos, bioquímicos, ou até mesmo aroma e sabor.

O alcance global da planta, e a falta de estudos científicos contribuíram para a propagação dessas nomenclaturas e posterior associação aos efeitos de consumo. Os rótulos Indica e Sativa se adaptaram globalmente como estratégia de marketing, mas não são significativos, e não podem ser diretamente relacionados aos efeitos causados pelo consumo, e muito menos, à composição genética da planta.

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Outra questão muito relevante é que ao longo do tempo e sobretudo devido aos processos de hibridização controlada durante a proibição, os quimiotipos foram cultivados para apresentar características particulares, principalmente no que diz respeito à alta porcentagem de THC, moldando a planta para ser mais interessante comercialmente. Os hibridizadores, ou breeders, se concentraram em criar quimiotipos com a maior quantidade de THC possível, para terem maior rendimento, num menor espaço de cultivo.

 Nesse contexto do proibicionismo, não se preservaram referências científicas dessas hibridizações, gerando uma diversidade imensa e uma única certeza, de que atualmente, tudo foi hibridizado, não sendo possível se referir a um quimiotipo como puramente Sativa ou Indica. Apesar da planta ser largamente difundida e utilizada ao redor do mundo, por conta das longas décadas de proibição, os estudos científicos no campo da cannabis ficaram defasados, e nem todos os pesquisadores concordam com uma única taxonomia. Enquanto nosso entendimento da planta de desenvolve, e a história evolutiva da Cannabis é revelada, as adaptações na nomenclatura taxonômica continuarão a refletir essa evolução. 

O estudo da Nature citado acima é o primeiro de uma série que propõe que um novo sistema de classificação seja estabelecido com base na variação do genoma, complementado por dados sobre compostos secundários, agregados às características morfológicas. Nele, foi estabelecida uma distinção onde a diferenciação entre Sativa e Indica seria melhor entendida pelas diferenças nas concentrações de monoterpenos e sesquiterpenos específicos. Por exemplo, o efeito sedativo e aroma terroso atribuído ao alto teor de mirceno, é freqüentemente relatados por usuários, como característicos das cultivares Indica. O conteúdo de Sativa foi relacionado com as concentrações de bergamoteno e farneseno, que conferem aromas de chá e frutados. Isto é consistente com as descrições das variedades Sativa como tendo um aroma ‘doce’ ou ‘herbal’.

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Cultivadores de Cannabis têm começado a atribuir rótulos a cultivares principalmente com base em perfis de aroma e supostos efeitos, em vez de ancestralidade genética ou similaridade química geral. As principais diferenças entre as cultivares rotuladas como Sativa e Indica podem assim ser impulsionadas por um pequeno conjunto genômico que controla as concentrações de associações gerando aromas específicos. A rotulagem da canabis seria provavelmente definida pela associação de terpenos chave cujas concentrações contribuem para os aromas característicos comumente atribuídos a Sativa e Indica, e cuja variação foi mapeada geneticamente em conjuntos de terpenos. 

Embora a indústria de cannabis esteja avançando rapidamente após o relaxamento das restrições legais na América do Norte, o número crescente de variedades confunde ainda mais o panorama genético mal compreendido das milhares de variedades já existentes. Pesquisas aprofundadas são necessárias para embasar essa indústria com fundamentos científicos, definindo uma maneira mais efetiva e coerente de se entender as múltiplas possibilidades de efeitos, com base na composição química de cada quimiotipo, seu perfil de terpenos e a porcentagem de canabinóides. Uma nova convenção de nomenclaturas, baseada em evidências científicas, pode soar utópica, mas se faz necessária para a indústria se desenvolver, e para a comunicação ser efetiva e coerente. É fundamental que a variação genética e química da planta seja quantificada e comunicada sem folclore e com precisão.

Referências usadas neste artigo:

Watts, S., McElroy, M., Migicovsky, Z. et al. Cannabis labelling is associated with genetic variation in terpene synthase genes. Nat. Plants 7, 1330–1334 (2021). https://doi.org/10.1038/s41477-021-01003-y

McPartland, J.M., Guy, G.W. Models of Cannabis Taxonomy, Cultural Bias, and Conflicts between Scientific and Vernacular Names. Bot. Rev. 83, 327–381 (2017). https://doi.org/10.1007/s12229-017-9187-0

Bonini, S. A. et al. Cannabis sativa: a comprehensive ethnopharmacological review of a medicinal plant with a long history. J. Ethnopharmacol. 227, 300–315 (2018).

Clarke RC, Merlin MD. Cannabis: Evolution and Ethnobotany. Berkeley, CA: University of California Press; 2013.

Sobre a autora:

Maria Ribeiro da Luz é fundadora da Anandamidia, uma empresa especializada em mídias diversas para cannabis, que opera entre Brasil e Canadá. Maria está imersa no universo da cannabis no Canadá, e em suas colunas, aborda ciência, história e inovações do mercado norte americano, com o intuito de fortalecer a causa no Brasil.

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e de responsabilidade de seus autores.

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