Em entrevista ao Sechat, Gabeira avalia o momento da cannabis no mundo

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Fernando Gabeira é daqueles brasileiros que parecem ter vivido muitas vidas em uma só. Escritor, jornalista, político e ativista em causas sociais e ambientais, Gabeira é daquelas biografias das quais nos orgulhamos. E muito. Com 78 anos, segue ativo com um programa semanal na Globonews. Nele aborda uma pauta diversa, que vai desde temas mais espinhosos, não muito comuns nos grandes jornais, até cultura e arte brasileiras. Deputado federal por 4 mandatos, candidato à presidência da República (1989) e quase prefeito do Rio em 2008 (perdeu por uma diferença de apenas 50 mil votos em um universo de 3,5 milhões de eleitores), Gabeira é um dos fundadores do Partido Verde (1986) que tem como bandeira histórica a descriminalização da maconha. O jornalista, que lutou contra a ditadura nos anos 60 e 70, chegou a ser e preso e exilado, pode ser considerado ativista pioneiro da causa da Cannabis no Brasil.

No 20/4, Dia Mundial da Maconha, Sechat publica uma entrevista exclusiva com Gabeira. Ele avalia as chances da liberação da maconha medicinal e do uso recreativo no mandato do presidente Bolsonaro.

“O governo tem um componente conservador e tem um componente liberal. Possivelmente com o componente liberal do governo,  tem uma perspectiva. Ele não teria nenhum inconveniente em liberar tomando como exemplo os Estados Unidos ou tomando como exemplo outros países que entraram na mesma trilha.” Gabeira acha que a pressão do capitalismo canábico mundial pode influenciar o Brasil. Destaca também a importância das famílias, dos médicos e dos cientistas na luta pela liberação do uso medicinal da maconha.

Sechat:Como o senhor vê esse novo momento do vegetal Cannabis Sativa no mundo, com essa descoberta de propriedade medicinal para uso para várias doenças? Como você tem visto?

Gabeira: Essas referências já são muito antigas. Muito possivelmente em momentos anteriores da nossa história, em momentos muito remotos da história, já tenha sido usada com esse fim. Ultimamente, quer dizer, nos últimos anos as pesquisas avançaram muito. No sentido de pelo menos duas doenças – uma delas é glaucoma. Essa é bastante importante. E nos episódios de convulsão produzidos por síndromes raras, o que já levou o país a um certo avanço na legislação permitindo a importação do remédio.

Mas evidentemente que para o Brasil, que é um produtor de cannabis, seria muito mais fácil produzir o remédio internamente. Para isso seria necessária uma legislação que permitisse.

São as famílias que estão falando sobre o assunto permanentemente, elas se organizaram e tem mostrado que precisam realmente do canabidiol.  Mostraram os efeitos positivos que tiveram em suas casas. Eu creio que a tendência é de um fortalecimento cada vez maior…

Mesmo por que o outro aspecto da questão – a liberação para uso recreativo avança também muito no mundo. Talvez no Brasil não tanto, por causa das circunstâncias… mas a verdade é que ela avança muito no mundo. Nos Estados Unidos, já tem uma indústria.Aqui existem terras que poderiam ser usadas para isso.

Agora, eu acho que essa tendência de utilizar medicinalmente já está consagrada na lei de algum modo, ainda que por meio de decisões localizadas e individuais. O desafio é avançar um pouco para a questão da produção do suplemento e da qualidade. Essas coisas podem influenciar bastante.

Você acredita que o grupo conservador que está no poder – no Congresso e no Governo Federal – poderá tratar o uso medicinal da maconha de maneira isolada? Ou seja, separar bem as duas finalidades, o uso recreativo do uso medicinal?

Olha, pela minha experiência sobre esse tema, a tendência deles é considerar que a defesa da maconha no uso medicinal é apenas um argumento para fortalecer a defesa do uso recreativo.

Você acha que a posição política deles vai ser essa do início até o fim?

Eu acho que a posição vai ser desde o início até o fim, mas acho que também podem delimitar o campo e pronto – isso aqui é até onde nós podemos chegar. Depende de uma conversa, depende de um entendimento e eu acho que isso poderia ser feito pelos próprios cientistas que atuam no assunto – como o Elisaldo Carlini, que aqui no Brasil, descobriu nos anos oitenta a vocação medicinal da planta.

São as famílias, os médicos e os cientistas que vão de uma certa maneira fornecer os argumentos e liderar a discussão.

E como você viu essa nova resolução da Política Nacional sobre as Drogas, que muda a questão da redução de danos e que propõe o tratamento pela abstinência total?

Essa mudança é a proposta deles. Inclusive, dentro do

grupo existe o Osmar Terra (ministro da Cidadania) que tem uma posição bastante severa sobre essa questão. Eu acho que isso aí não vai representar na realidade um avanço. Pelo contrário. Eu acho que a política sobre esse tema no Brasil se resume muito a repressão. Eles estão aumentando pura e simplesmente a repressão. E o mundo hoje sabe que o uso puro e simples da repressão não resolve o problema. A concepção deles é de avançar na severidade.

Isso não é uma questão que é nossa só, é uma questão de vários países do mundo. Nenhum de nós tem uma resposta definitiva sobre isso. O que fazemos apenas é apontar que a política de repressão não tem sido vitoriosa e que é necessário repensá-la.

O que você acha dessa suposta ambivalência posta no cenário com o mundo caminhando para um lado progressista, fazendo o uso medicinal, avançando na ciência, liberando o uso recreativo da maconha e ao mesmo tempo uma situação como a do Brasil, em que um grupo político chega ao poder e propõe somente a repressão? Como você vê esse paradoxo brasileiro e até que ponto essa força do exterior pode chutar a porta aqui dentro?

Eu acho que a força do exterior sozinha não chuta a porta. O que eu acho é que ela tem uma força muito grande e ela é como “os três porquinhos”, pode soprar forte, mas ela não derruba a porta.

Eu acho que o que derruba a porta realmente é uma tomada de posição interna. Se você analisar o governo, ele tem um componente conservador e tem um componente liberal. Possivelmente com componente liberal do governo,  tem uma perspectiva. Ele não teria nenhum inconveniente em liberar isso tomando como exemplo os Estados Unidos ou tomando como exemplo outros países que entraram na mesma trilha. Mas o lado conservador é o lado que o Bolsonaro representa melhor e é o lado em que ele acha que tem que dar satisfação aos seus eleitores. Então é muito difícil ter alguma alteração nele, embora eu ache que existem setores do governo que possam ver a questão de uma forma mais moderna.

A partir de seu histórico sobre o tema, como você vê o momento da cannabis no mundo? Essa espécie de aurora, de alvorada?

Como todas as coisas que parecem revolucionárias, elas são fortemente e amplamente absorvidas pelo capitalismo. A cannabis hoje passou a ser nos lugares em que ela é legalizada ela passou a ter um dínamo industrial. Uma indústria em grande crescimento, acumulando lucros e atraindo mais capital. A lógica capitalista é de crescimento nos lugares em que ela está legalizada. De modo que possivelmente são esses os frutos mundiais que podem influenciar a compreensão de que é uma nova indústria que se coloca.

Você imaginava que ia ver isso ou você achava que ia demorar mais tempo?

Olha, você vendo do lado do Brasil, você acha difícil. Agora sentindo o clima na Europa, o clima no próprio capitalismo europeu e no americano fica evidente que poderia haver uma tendência nesse sentido. Existe um fator muito importante nos Estados Unidos que é uma legislação estadual, as vezes coberto ou não por plebiscito ou referendo, mas é uma legislação estadual. Então há uma certa disputa entre os estados. Ou seja, se você transforma o tema em pauta de legislação estadual existe necessariamente uma disputa entre esses estados, em função dos grandes negócios que isso pode trazer.

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