Campanha Repense, que une associações de cannabis, é lançada em São Paulo

Foi lançada na noite desta terça-feira (18), em São Paulo, a segunda edição da campanha Repense, uma iniciativa de sete associações de pacientes de cannabis medicinal que tem o objetivo de mobilizar políticos e médicos para regulamentar o cultivo associado da maconha.

O evento reuniu dezenas de pessoas que se tratam com a planta, além de médicos e apoiadores. No encontro, foi estreado o mini-documentário ‘A Dor dos Outros’, que conta a história de um homem que só conseguiu controlar suas dores de nível máximo inalando cannabis in natura. O filme foi dirigido pelo jornalista Tarso Araújo, e foi ele que mediou o evento.

Tarso falou trouxe para o debate a Cidinha Carvalho, presidente da Cultive, Associação de Cannabis e Saúde, Antônio Pedro Pierro Neto, neurocirurgião especialista em dor e coordenador do portal Sechat, e Cid Gusmão, oncologista diretor do Centro de Combate ao Câncer.

O jornalista apresentou os 14 princípios que norteiam a campanha e que representam, segundo as associações, a melhor forma de se fazer a regulamentação da cannabis medicinal no Brasil – associativa. E perguntou para Cidinha qual seria o impacto dessas políticas. Ela respondeu que as associações hoje estão fazendo um papel que o Estado deveria fazer e criticou a proposta da Anvisa que exclui essas entidades.

“É ignorado que essas associações foram formadas por pacientes, todo esse assunto foi trazido ao Brasil pelos pacientes. E não teve nenhuma participação da sociedade civil nessa construção. Dizem que (o projeto) fala em CNPJ, então pleiteiaria as associações. Mas como você (vai fazer), tendo um padrão de exigência altíssimo, onde uma associação sem fins lucrativos não consegue alcançar? Isso não é regulamentação de acesso.”

“Hoje eu não opero um paciente sem antes tentar o remedinho natural”

O médico Antônio Pedro Pierro Neto, por sua vez, confessou que desconhecia o uso terapêutico da erva e só passou a receitar cannabis por pressão dos próprios pacientes. O neurocirurgião recebe com frequência pacientes, a maioria crianças, com indicação para algum tipo de cirurgia para controle de epilepsia refratária. E percebeu que crianças que tinham até 50 convulsões por semana, de repente voltaram ao consultório tendo duas crises semanais. Uma família da qual o médico tinha mais intimidade revelou que estava dando um “remedinho natural” feito de maconha para a filha. Pierro ficou espantado, já que nunca tinha ouvido sobre o assunto. 

“Milagrosamente essa criança parou de convulsionar. De frente para essa realidade, como eu vou falar que isso não existe? Como eu não vou repensar meus critérios de tratamento?. E aquelas crianças que milagrosamente tinham melhorado no meu consultório, eu descobri que na verdade tinha uma paciente, ela era aeromoça, então trazia dos EUA, e estava vendendo um oleozinho santo para essas mães desesperadas. (…) Hoje eu não opero uma criança sem antes tentar esse remedinho natural”.

“A cannabis não é nova na oncologia”

O médico Cid Gusmão comentou sobre o uso da cannabis na oncologia. Disse que desde 2004 já existe um crescimento grande de estudos sobre a cannabis para controlar a dor, citando o PubMed. E que a oncologia é uma área que convive diariamente com a dor.

“Dois terços das indicações da cannabis hoje são por causa da dor. É mais uma substância que nós temos no nosso arsenal terapêutico para melhorar a qualidade de vida do nosso paciente. E afinal esse é o objetivo da medicina: ajudar o paciente. Então, na área da oncologia, não é uma coisa recente. Mas agora vai entrar com um leque de atuação bem mais forte do que no passado”.

Campanha quer lotar caixa de e-mail do presidente do Senado

Ao término do debate, o jornalista Tarso Araújo lembrou da chamada à ação que a campanha pede: pressionar o Senado. O Projeto de Lei PLS 514 propõe autorizar o cultivo de cannabis com fins terapêuticos por pacientes e associações. Segundo a Repense, a lei poderia ajudar milhões de pacientes, mas a tramitação do projeto está parada na Comissão de Cidadania e Justiça. O PL é de autoria da senadora Marta Suplici. A parlamentar conversou com o Sechat sobre a proposta.

Por isso, a campanha convida a sociedade a mandar um e-mail para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM) pedindo para que ele agilize a tramitação do projeto na Casa.

Foto: Marcus Bruno/ Sechat
 

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