Ator ex-Globo e ex-Record produz em casa o óleo canabidiol usado para aliviar dores fortes

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Reportagem de Andre Basbaum

Imagine um ator talentoso, com vastíssima experiência nos palcos e sets de filmagem do Brasil – comprometido com a formação de novos artistas da sua área. Imagine um estudioso do teatro, que passou pela escola mais relevante do país. Imagine um cara gente boa, generoso e que se importa com os vizinhos, os amigos e a família. Imagine um homem experiente e pacato, que aprecia e respeita a natureza e que só entra em brigas boas e grandes. Tudo isso é o nosso personagem da semana, Ricardo Petraglia. Ator ex-Globo e ex-Record e batizado carinhosamente pelo Sechat de “O Alquimista de Xerém”.

Para chegar até o sítio de Ricardo é preciso uma viagem de carro de pouco mais de uma hora do centro do Rio de Janeiro em direção a Petrópolis. A casa de campo do artista fica no distrito de Xerém, zona rural de Duque de Caxias, região metropolitana do Rio. Perto dali ficam a sede do Fluminense para os jogadores da base do clube e também a chácara de outro artista brasileiro, o músico Zeca Pagodinho.

Desde que se aposentou há 3 anos, Petraglia se mudou para o sítio e lá vive uma rotina tranquila. Cuida da casa, do jardim grande e dos pés de cannabis. No terreno ao lado, cultiva um minhocário gigantesco, de onde tira uma terra escura, úmida e cheirosa – perfeita para usar nos vasos com o vegetal medicinal. “É um substrato parecido com terra preta de índio. Colho microrganismos eficientes, coloco minhocas, melado, cocô de vaca. E ainda vendo pela internet, em apresentações e em lojas. Com o dinheiro, ajudo as associações que reúnem as famílias de pacientes com doenças raras e graves – tratadas com maconha medicinal”, explica Ricardo.

O ator de 68 anos tem permissão para plantar a maconha em seu quintal. Com dores fortes na perna e na coluna, por conta de uma prótese na cabeça do fémur direito, e no abdômen, por causa de complicações no fígado, Ricardo usa o canabidiol, medicação extraída artesanalmente da cannabis que ele mesmo cultiva. “Uso uma prótese coxofemoral que desalinhou minhas vértebras e causa uma dor tremenda nas crises. A maconha ameniza. Tenho complicação hepática, não posso tomar remédios, a cannabis ajuda. Troquei até comprimidos para dormir por gotinhas do óleo de canabidiol”, detalha. E claro, Petraglia possuí orientação médica. O profissional que o acompanha há anos orienta o passo a passo da produção do óleo e o caminho químico necessário para ele obter a concentração ideal das propriedades que o vegetal oferece. O médico de Petraglia conta ainda com o auxílio de colegas do departamento de química da UFRJ, A Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Dic, como é chamado pelos amigos e pela família, também cuida dos vizinhos. Chovia forte quando eu cheguei na casa de Ricardo para fazer essa reportagem. Estava faltando energia elétrica há 3 dias. Nesse mesmo tempo, uma equipe da companhia de energia trabalhava para reerguer o poste tombado e reestabelecer a eletricidade. Eram cinco homens de uniforme ensopado, trabalhando há mais de 14 horas seguidas e com muita fome. Ricardo desceu de carro duas vezes até ao pequeno mercado da região para comprar comida para o grupo. “O Dic é assim mesmo, gente fina. Todo mundo aqui em Xerém conhece ele, elogiou Dona Carmélia de Souza, balconista da padaria do mercadinho.

Paulistano do bairro de Santa Cecília, região central de São Paulo, Ricardo Petraglia não é tão somente um bom vizinho. Dic é um ator talentoso da televisão, do cinema e do teatro brasileiro. Entre novelas e séries de TV, atuou em 35 diferentes trabalhos, com destaque para os anos de TV Globo e Record TV. Esteve em papéis importantes de folhetins conhecidos do grande público como “Sem lenço e sem Documento”, “Selva de Pedra”, “Salomé”, “As Noivas de Copacabana” “Amazônia” e tantas outras. No cinema, “Gabriela” dos anos 80, um filme que marcou toda uma geração. 

O teatro é o ponto forte da carreira de Petraglia. Integrante do grupo Teatro de Arena, nos anos 60 e 70, foi pupilo de Antunes Filho – o diretor mais relevante da história do teatro brasileiro, com uma obra conhecida pela renovação estética, e forças política e cênica. Mais velho, já nos anos 90, Ricardo também ensinou dramaturgia na oficina de talentos da Universidade Estadual do Rio – UERJ, foi professor de nomes de peso da cena nacional atual, como Seu Jorge, por exemplo. O monólogo Rei dos Escombros de 2005 foi um dos últimos grandes sucessos do artista nos palcos. O cartaz da peça decora a sala da casa de campo do Alquimista de Xerém.

Ricardo é um ativista canábico radical. “Quero deixar bem claro que sou a favor da legalização total, tanto do uso medicinal quanto do recreativo. Mas é claro que a autorização do uso como medicação já é um avanço e tanto”. Não se sabe quantas pessoas no Brasil podem cultivar o vegetal com o objetivo de produzir o canabidiol caseiro. O Sechat apurou que desde 2014 – data da primeira permissão de importação do canabidiol – a Anvisa já recebeu pelo menos 900 diferentes pedidos de compra no exterior baseadas em prescrições médicas. Deste universo, não se sabe quantos seguem usando, quantos seguem importando e quantos passaram a produzir o óleo em casa. Vale lembrar que uma caixa de ampolas do canabidiol chega ao Brasil a um custo de pelo menos mil e quinhentos reais – medicação para cerca de um mês de tratamento.

Na conversa com o Sechat, o artista elaborou outras questões que também estão na área de influência do tema cannabis, como segurança pública. “O que gera violência não é a maconha, mas a proibição. Não defendo a regulamentação da planta, senão vai ter que regulamentar o brócolis também, que vem cheio de agrotóxico liberado pelos governos do mundo todo. Aqui, os cultivadores vão presos por causa de meia dúzia de pezinhos de maconha. Um ator aposentado como eu não tem como pagar 400 dólares por um vidrinho”.

A última peça do ator Ricardo Petraglia esteve em cartaz há um ano e guarda relação íntima com a cannabis: O monólogo “Os malefícios da maconha”, uma alusão direta e bem-humorada à obra “Os malefícios do tabaco” escrita pelo dramaturgo russo Anton Tchekhov em 1887. “Foi um espetáculo de ativismo, que faz a gente refletir sobre a proibição da erva, que por milênios foi vista como algo medicinal”, diz. E o texto era permeado pelo humor, num momento Petraglia se faz de vítima, noutro interpreta o policial, em um outro, o juiz que, na sentença, não bate um martelo, mas uma buzina. “A plateia morria de rir, se informava e se divertia ao mesmo tempo. Nesse mundão de hoje, com tantos estímulos é necessário buscar informação correta. Só assim é possível avançar e melhorar, pessoas e sociedade”, conclui o artista.

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